domingo, 6 de maio de 2007

Salário Mulher

Rodrigo e Rosana eram um casal de bom relacionamento, nesse mundo atribulado. Os dois trabalhavam. Rosana, professora, ganhava bem menos que Rodrigo. Por isso, ele pagava a maior parte das despesas. Ela contribuía com um valor proporcional a suas posses. Recém-casados, tinham empregada três vezes por semana. Nos outros dias, Rodrigo costumava preparar as refeições. Ele era bom de cozinha, tinha sido dono restaurante. Gostava de criar, do ritual, de saborear a refeição, sempre acompanhada de um bom vinho. Era um gourmet. Rosana o ajudava pegando travessas, utensílios, picando ingredientes, limpando a louça que ele sujava e a comida que caia no chão. Mantinha tudo arrumado. Botava e tirava a mesa com capricho. Sempre dizia, nas rodas de amigos, que era ele quem cozinhava e que tudo o que ele fazia era ótimo. Uma forma de reconhecimento. Mesmo que o trabalho dela, no preparo e no pós-preparo, fosse fundamental, ela fazia questão de não relatá-los para não tirar-lhe o brilho.

Um dia, quando estavam atrasados para um encontro com amigos, ele disse que antes iria preparar um jantarzinho rápido. Ela ponderou que o tempo era curto e precisava se arrumar. Ele insistiu. Rosana então perguntou: você pode fazer o jantar sozinho? Rodrigo respondeu: eu sempre faço tudo sozinho. Pra quê? Rosana ficou uma fera. Como sozinho? E o trabalho dela? Por acaso, era invisível? Resolveu dar-lhe uma lição. Não moveu uma palha para aquele jantar. Ao sair, a cozinha estava um caos. Na volta, Rosana foi dormir e deixou a cozinha como estava. Pacote de massa e de manteiga abertos, grãos caídos pelo chão, panelas e pratos sujos de molho e gordura, guardanapos usados em cima da mesa, uma pilha de louça suja dentro e fora da pia. Só para resumir.

No dia seguinte, Rosana acordou, avisou ao marido que, agora sim, iria arrumar toda aquela lambança. Marcou o tempo no relógio. Levou quase duas horas para deixar a cozinha em ordem. Como ninguém ficou tirando a sujeira da louça antes de por na pia, durante o preparo, ela teve que lavar cada peça duas vezes porque a gordura se alastrou contaminando todas as outras louças com uma grossa crosta. Foi um nojo! Não sei se Rodrigo aprendeu a lição. Deve ter aprendido, pois nunca tinha ido dormir com a cozinha naquelas condições.

Moral da história: Rosana e Rodrigo trabalham fora. Rosana cuida da casa toda. Rodrigo dá uma mão fazendo o jantar eventualmente. Mesmo assim, com a ajuda dela. O pequeno trabalho doméstico dele é reconhecido por ela. Mas o dela não. Esse é apenas um exemplo de como essas tarefas caseiras da mulher, além de não serem remuneradas, são invisíveis. Apesar de exaustivas, são despercebidas. A mulher conquistou a tão almejada igualdade com o homem? Não. Se os dois trabalham, deveriam dividir TODAS as tarefas domésticas. Se o homem contribui mais financeiramente com as despesas e a mulher com a arrumação e manutenção da casa, tudo bem, estariam quites. Cuidar e administrar a casa é uma forma não financeira de contribuir. Mas precisa ser reconhecida. Salvo raras exceções, a mulher que não trabalha fora, praticamente não apita nada no casamento, pois não é ela quem “banca”.

Se é só o dinheiro que conta, presidente Lula, faça o favor de criar o “salário mulher” para ajudá-la a pagar as despesas da casa. Pelo visto, somente assim ela conquistará a cidadania conjugal. Mas pague em dobro, pois, de qualquer forma, essas tarefas domésticas, mesmo que fossem remuneradas, ao contrário do trabalho do homem, seriam em benefício do casal ou da família e não de terceiros.

Este é o primeiro texto da série “Salário
Mulher. Aguardem o próximo!

4 comentários:

mimy@yahoo.com.br disse...

Muito bom o texto Verônica!É a mais pura realidade, salvo algumas exceções.Acho que se milhões de mulheres pudessem lê-lo todas fariam coro com você. Vou passar a recomendar seu blog para muitos homens que conheço.

bebel disse...

Infelizmente ainda hoje persiste uma diferença primordial no tratamento homem/mulher em seus respectivos empregos e salários. Somos ainda discriminadas até em nossos lares. O reconhecimento de "alguns" homens é raríssimo e não muito constante. A nossa realidade é muitas vezes cruel vinda da parte do sexo mascuino, e não está vinculada a salário só não. Na maioria das atitudes em relação ao nosso sexo, somos ainda, claro que, com exceções, párias.

Clarisse disse...

Oi mãe, você devia mandar esse texto para revistas femininas.
é ótimo!!
Beijos

Cumulus Nimbus disse...

Acho que sou o único homem a comentar este texto, até o momento. E quero elogiá-lo muito. É lamentável que, em pleno século 21, essa realidade ainda persista, inclusive entre casais de classe média, teoricamente mais esclarecidos. De minha parte, acho que nunca dei motivos para reclamações, nesse sentido. Sempre fiz e faço tarefas domésticas com a maior tranqüilidade, mesmo porque não sei viver no meio de bagunça ou sujeira. Na verdade, limpeza e arrumação são quase uma obsessão, para mim. E, infelizmente, também existe o outro lado: mulheres que não valorizam essa colaboração do parceiro e dão mais valor ao homem "másculo", que não perde tempo com essas "frescuras". Pronto, fiz a minha queixa, também. : )