Sísifo: teatro experimental
Quarta-feira, fui ver a estréia para convidados de Sífifo, na UniRio.
A peça, dirigida por Diana de Hollanda, com assistência de Clarisse Zarvos, é resultado de uma pesquisa, conduzida por Diana, aluna da Faculdade de Direção Teatral da UniRio, para sua última Prática de Montagem. O trabalho teve como ponto de partida o estudo do livro O mito de Sísifo, de Albert Camus, e do conceito, introduzido pelo mesmo, de Homem Absurdo, aquele que vive sem amparar-se numa idéia de salvação - seja esta qual for -, limitando-se ao terreno e visível.
De cara, me deparei com o texto:
"Os nomes giram; parece, a vida é uma ciranda. Quando dançam, maquiam a imobilidade das semanas - não saíram do lugar. Na mesma roda - a possível - os nomes se alternam e justificam que não nos matemos, há o que fazer. Ainda que eu embaralhe as sílabas, as possibilidades não são tantas; não se repete o que não lembro."
Ao entrar no espaço cênico, tive a sensação de estar diante numa instalação humana. Minha atitude, então, foi a mesma que tenho ao fruir uma obra de artes plásticas contemporânea, dessas em que você mergulha numa experiência dos sentidos em geral, não apenas do olhar.
Mas como era teatro, fiquei na expectativa de que, em algum momento, surgissem naquelas cabines - lindas por sinal - alguma história, trama, drama ou comédia. Em suma, um espetáculo. Mas logo percebi que o que estava sendo exposto ali eram fragmentos do cotidiano, da vida em geral, sem muita ligação de causa e efeito, sem continuidade, princípio, meio e fim.
Então concluí que a montagem se tratava de um anti-espetáculo, pois a vida real está longe de ser um espetáculo. Comecei a achar a proposta bem interessante e fui percorrendo os espaços deixando que a percepção guiasse minha interpretação *.
Ao fim da experiência, vi que a peça era uma bela paródia da vida. Percebi que os atos cotidianos são, na maior parte do tempo, repetitivos, com algumas alterações ou poucos saltos de modificações.
Na peça, as ações acontecem simultaneamente nos diferentes espaços, mas o espectador só pode ver ou vivenciá-las uma de cada vez. Por mais que tenha vontade de saber tudo o que está acontecendo ao mesmo tempo, não consegue. E, cada vez que ele volta a uma cabine, presencia um momento diferente daquelas seqüências de fragmentos de ações.
Mais para frente, achei que, em cada cabine, os atores fossem representar o mesmo conjunto de atos até o fim. Mas, como fui avisada de que não havia um “the end”, pensei: se o cotidiano revela que fazemos sempre as mesmas coisas, então elas não podem ser infinitas. Dei um tempo e percebi, depois de alguns minutos, que as seqüências de encenações recomeçavam do ponto de partida, assim como a projeção da frase “daqui a 20 minutos as coisas podem mudar”, sugere que, mesmo mudando, elas voltam a ser iguais em sua essência.
Como na vida, os dias, os meses, os anos recomeçam e prosseguem com seus mesmos rituais, necessidades fisiológicas, sentimentos, paixões, sofrimento, alegria, vazio, cheio, altos e baixos, problemas e soluções... Mal terminaram a festas de final de ano, que foram iguais às do ano anterior, já estamos olhando para frente e vendo outras, quem sabe o carnaval, a páscoa, a semana da pátria e, de repente, um novo natal. Até aí, tudo bem, mas também vemos as mesmas reuniões requentadas, as mesmas contas a pagar todo mês, a nova declaração de imposto de renda e, de novo, a rotina do dia-a-dia. A pedra de Sísifo voltou ao pé da colina?
A vida é mesmo como um círculo, uma ciranda, como está no texto de apresentação. E o que realmente faz com que a vontade de viver prossiga nesta aparente mesmice é que, por mais limitadas que sejam as possibilidades, nunca um dia é igual ao outro. Porque a combinação de momentos, de rotinas, de acontecimentos diários, esta sim, me parece infinita.
Quando numa cabine havia uma música, em algum momento de uma seqüência, as cenas repetidas das outras mudavam todo o sentido. Como um caleidoscópio. O sono de um personagem pode combinar com um momento de paixão ou desamor de um casal, que pode combinar temporalmente com a hora em que uma mulher se masturba ou com o instante posterior em que ela lava a calcinha.
São essas probabilidades combinatórias diferentes que tornam a vida mais do que uma repetição sem graça.
A falta de memória é outro fator que dá impulso à vida. Depois de entrar e sair dezenas de vezes daquelas cabines, percebi que minha memória era incapaz de reter tudo o que tinha visto em exposição. Essa impossibilidade de lembrança total faz com que você sinta vontade de ver de novo ou de repetir uma sensação. Imagine se nós nos lembrássemos de todos os momentos de nossas rotinas diárias ao longo de nossas vidas. Isso sim, talvez fosse um motivo para morrer. Mas também nós apavoramos só de pensar que teremos nossa rotina roubada, que amanhã não vamos poder escovar os dentes depois do café, que não vamos ver nossos filhos dormindo no quarto, que não vamos poder fazer de novo o trabalho que gostamos, “que a pedra vai parar de rolar”.
Gostei muito dos signos, como o computador e a televisão, que sugerem a eliminação de tempo e espaço. No caso da televisão, minha cabine favorita, foi muito bem usada como prolongamento do espaço cênico, com as cenas cotidianas intermináveis e sem edição, como a da menina no ônibus, a do sono da outra, a das aulas etc. A televisão ali funcionou, por um lado, como símbolo de um mundo que se move pelo consumo de imagens – o que faz parte da nossa vida cotidiana ocidental -, mas por outro, atuou também como a anti-televisão, ao mostrar as imagens de vivências em seu tempo real, sem cortes ou montagens normalmente usados para dar ritmo de produto de consumo.
Fora isso, gostei muito do cenário, da iluminação, daqueles relógios onipresentes e da criatividade na interação da imagem com o ator na projeção de slides. Afinal, o espectador precisa se surpreender, mesmo com a rotina.
* Na peça, não há condução de qualquer tipo guiando os olhos do espectador, que tem a liberdade de se movimentar à vontade, e inclusive abandonar o espaço cênico no momento em que lhe parecer conveniente.
sábado, 19 de julho de 2008
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